ELEJÓNOTÍCIASOPINIÃO

Zoológicos, para que?

*por DALMO OLIVEIRA

Leões na jaula | Imagem: Aaron Craig | by Pinterest

 

A morte (quase anunciada) de Gerson de Melo Machado, de 19 anos, no domingo, 30/11, ao ser atacado por uma leoa depois de invadir a jaula da fera no Parque Arruda Câmara, em João Pessoa, traz à tona uma discussão antiga em toda a humanidade: qual é mesmo a função de um zoológico?

O zoológico do Parque Arruda Câmara, conhecido como “Bica”, foi criado em 1921. O espaço público, que nasceu como um jardim zoobotânico, reunindo tanto flora, quanto fauna possui uma área de 26,8 hectares. Em 1922, recebeu oficialmente esse nome em homenagem ao botânico paraibano Manoel Arruda Câmara. A Bica foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba (IPHAEP) em 26 de agosto de 1980, garantindo sua preservação como patrimônio cultural e ambiental.

Os zoológicos, como os vemos hoje em dia, têm origem milenar, remontando ao Egito e à Mesopotâmia, onde reis e membros das elites mantinham coleções de animais como símbolos de riqueza e de poder. Com datação de cerca de 2500 a.C., em Saqqara, no Egito Antigo, arqueólogos encontraram evidências de um parque zoológico que abrigava antílopes, babuínos, hienas e chitas.

Na Mesopotâmia: Reis mantinham animais selvagens. Leões e tigres eram utilizados em “combates” com seres humanos e isso era visto como uma demostração da força e legitimidade da realeza. E há cerca de 1000 a.C. na antiga China o imperador Wen Wang implantou uma espécie de “jardim zoológico real” com centenas de espécies.

Durante a chamada Idade Média, animais selvagens eram mantidos em coleções privadas de nobres e reis, muitas vezes em condições precárias, apenas para entretenimento. Já no Século 18, os zoológicos começam a se abrir ao público, com foco em Educação e Ciências. A partir de 1828, o Zoológico de Londres (UK) abre suas portas para o crescente interesse popular e os zoológicos modernos se consolidam como espaços urbanos de lazer e conhecimento, se transformando no primeiro “zoológico científico”.

Para além da curiosidade do público, os zoológicos passaram a cumprir funções mais nobre, como a conservação e reprodução de espécies ameaçadas. Alguns atuam ainda na perspectiva da promoção de pesquisas no campo da saúde animal.

A Bica

Mas, e a nossa Bica? Tem cumprido que papel? Precisamos mesmo confinar leões, ursos, tigres, leopardos, gorilas, chimpanzés naquele resto de floresta no Róger?? Quais os custos e benefícios dessa excentricidade para nossa população? Faz sentido criar animais selvagens exóticos confinados, apenas para saciar a curiosidade das pessoas?? Mantendo um arremedo do parque Beto Carreiro no coração verde de Jampa.

Seria algum demérito para a capital paraibana se um plebiscito decidisse que não precisamos desse cativeiro bizarro apenas para imitar os outros grandes centros urbanos da civilização humana contemporânea? São dúvidas que tenho. Questões de um cidadão que não visitou a Bica mais que cinco vezes em seus quase 40 anos morando aqui.

A síndrome de Indiana Jones

A morte trágica de “Vaqueirinho”, como era popularmente conhecido Gerson, chama atenção da opinião pública por outras razões para além da consequência de um provável surto psicótico, como tantos outros que ele teve em quase duas décadas de vida atribulada.

Exibe também a pré-falência de uma gestão de Saúde (SUS) e das políticas públicas que temos hoje, evidenciando falhas estruturais no diálogo institucional entre o Sistema Judiciário e gestores da Saúde Mental em João Pessoa. Uma falha sistêmica no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que visaria garantir direitos e proteger as famílias, crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência e indivíduos em situação de risco.

No delírio desse jovem, com graves transtornos mentais, a fixação nas aventuras de safáris africanos, a la o Indiana Jones dos cinemas. E se eu não posso ir ao safári, que ele venha até mim. Tudo muito triste!!


DALMO OLIVEIRA é jornalista. Artigo redigido com apoio do assistente virtual Copilot.

Mostrar mais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo