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MICE disfarçada de Doutrina Monroe

Grana, ideologia capitalista, coerção e ego contra a Venezuela

Desenho produzido no momento da primeira audiência de Maduro em Corte estadunidense | Fonte: Agência Reuters de Notícias

por DALMO OLIVEIRA*

Existe uma estratégia de convencimento desenvolvida há muito tempo, que foi sendo aprimorada por agências de Inteligência e de Espionagem em várias partes do mundo. Recebeu a sigla (em inglês) de MICE. O governo estadunidense, através de seus dispositivos institucionais, sempre utilizou essa “ferramenta” para reverte cenários desfavoráveis aos interesses do modelo de capitalismo que foi gestado na, assim chamada, “América do Norte”.

Evidentemente, o carro-chefe disso é o maldito money. Aqui no Brasil, por exemplo, costumamos dizer que quando alguma situação não pode ser resolvida foi porque o dinheiro investido foi pouco. A lógica da grana, a compra de tudo, o aluguel de consciências está na base da corrupção no mundo regido pelo capital. Dinheiro significa poder.

A ideologia é o segundo componente desta “cartilha” da cooptação. E aqui precisamos entender que não se trata apenas do conceito político clássico de ideologia. Entendamos como um conjunto de convicções, de tradições ancestrais, de fé naquilo que ergueu nossa comunidade, em valores morais arraigados, nos deuses da Guerra, nos costumes que animam nosso modelo social. Nesse sentido, o Apartheid é uma ideologia, a separação de castas também. Todas as formas religiosas são ideológicas de nascença.

Se a grana e a ideologia não resolverem, a coerção toma a frente de batalha. É o ato de induzir, pressionar ou compelir alguém a fazer algo pela força, intimidação ou ameaça. Coerção permanente é o mesmo que escravidão. Durkheim, que definiu o conceito de “coerção social”, tratou a questão como sendo um força externa e imposta pela sociedade sobre os indivíduos, para garantir que normas, regras e costumes, leis, moral e modismos prevaleçam, mesmo que contra suas vontades.

E o ezinho final da sigla é da palavra “ego”. Boa parte desses pontos do MICE se articulam e estão colados indissociavelmente, como money e coertion. Ideology e ego também são siameses. A coerção é bancada pelo dinheiro, que também move as ideologias. O ego de um indivíduo se nutre de poder, que assim pode escolher a ideologia que mais o agrada.

Monroe repaginado

James Monroe, ex-presidente dos EUA, oficiou uma declaração em 1823, que passou a ser chamada de “Doutrina Monroe”. Na prática, ele queria garantir, na marra, que a Europa interrompesse seus processos de intervenção nas Américas. Daí ele cunhou uma frase de efeito (tá mais pra slogan!) que ficou famosa, o lema “América para os americanos”. Dali em diante, qualquer tentativa de novas colonizações ou interferência europeia seria vista como agressão aos EUA. Monroe tomou para seu país o papel de protetor máximo do hemisfério ocidental. Em contrapartida, prometia não mais interferir nos assuntos internos europeus. Daí surge o primeiro esboço moderno de uma “política externa americana”, expansionista e intervencionista APENAS na América Latina. Simples assim!

O rapto, seguido de sequestro, sofrido pelo presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, na madrugada do último dia 03, promovidos por agentes de elite das Forças Armadas estadunidenses, em pleno solo venezuelano, é um capítulo de repaginação da Doutrina Monroe.

A sequência que antecede esse fato é a adoção, por Washington (DC) da estratégia MICE, alterando a ordem da sigla, que para esse caso funciona como ECMI. O ego do ocupante da Casa Branca acima de tudo. Um cara que já demonstrou, inúmeras vezes, que sua estratégia preferida é a ameça (coerção), a intimidação (coerção), a chantagem (coerção), a força bruta (coerção).

Com Israel promovendo genocídio em Gaza e Moscou anexando a Ucrânia, a “águia do Norte” estava impaciente com suas garras recolhidas. Petróleo e armas movendo os mercados mais rentosos, comandados, em sua maioria, por corporações que financiaram as últimas eleições. O ataque à soberania venezuelana é apenas um ensaio tenebroso do que pode ocorrer no restante não-alinhado das Américas.

Na prática, a República Bolivariana da Venezuela, e seu presidente, enfrentam uma guerra não declarada, Maduro tem razão, ao se declarar na presença de um juiz em Manhattan como “prisioneiro de guerra”. Uma guerra híbrida, realmente, que durante anos tentou deslegitimar o processo autônomo das eleições venezuelanas.

Ainda em relação à estratégia narrativa de ideologia, EUA cunha um novo perfil para seus inimigos: “narcoterroristas”. A ação da Força Delta em Caracas inovou ainda noutro quesito: rapto e sequestro da primeira-dama Cilia Flores.

Quando Osama bin Mohammed bin Awad bin Laden foi executado, naquele maio de 2011, em Abbottabad, nas montanhas do Paquistão, todo mundo percebeu que o “xerife global” não respeita fronteiras. Resta saber até quando ele vai poder carregar este distintivo no peito.

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*DALMO OLIVEIRA é jornalista

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