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Althusser na Avenida

Porque Lula é o Presidente da República mais homenageado no Carnaval?

por DALMO OLIVEIRA*

Althusser considerava a cultura como espaço privilegiado para difusão de ideologias | Imagem modificada com I.A.

O desfile, ontem, na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, da estreante Acadêmicos de Niterói, no chamado “Grupo Especial” das Escolas de Samba do Carnaval carioca, criou um frisson generalizado e mobilizou narrativas de vários matizes ideológicos. Com o Samba-Enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, a apresentação, mostrou, no sambódromo mais famoso do País, nuances da trajetória do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de sua família.

A oposição raivosa, liderada principalmente por dirigentes dos partidos Novo, Liberal e União Brasil, já haviam tentado, em vão, nas semanas anteriores, barrar, na Justiça, o desfile da agremiação. Alegaram, entre tantas outras bobagens, que se tratava de “propaganda eleitoral antecipada”.

Algumas ações solicitavam que Lula fosse proibido de pisar na Marquês no momento do desfile, que durou menos de 50 minutos. Outras interpelam a Escola de Samba para que devolva os recursos públicos recebidos como financiamento do espetáculo público.

Na prática, a oposição política e ideológica ao Presidente Lula, pretendia apenas uma coisa: obter liminar de censura prévia contra uma das manifestações culturais que mais simboliza o Brasil como nação desde que o Rei Momo pisou pela primeira vez no asfalto, seguido de súditos brincantes. Figuras como a senadora Damares Alves (Republicanos -DF) e o deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil – SP) se prestaram a esse tipo de apelação.

Mas, setores da Esquerda que apoiam Lula também registraram preocupação com a abordagem com que o carnavalesco Tiago Martins coloriu o desfile da Acadêmicos. Em grupos de mensagens, alguns “analistas” definiram a apresentação como “tiro no pé”, usando uma narrativa bem “bozonarista”.

E por falar em Bozo, a caracterização do famoso palhaço televisivo dos anos 80 num dos carros alegóricos da Escola pode ser considerada, essa sim, desnecessária e apelativa. Para enaltecer Lula e sua história de lutas e vitórias o carnavalesco nem precisaria citar o ex-Presidente antecessor, que ficou famoso pela postura negacionista durante a pandemia da Covid-19 e acabou condenado pela Justiça por capitanear a mais recente tentativa de golpe de Estado.

Na verdade, a mera citação, com todas as licenças poéticas possíveis a Jair Bolsonaro, acaba por contaminar, enfeiar e sujar qualquer homenagem a Lula. Uma pesquisa no COPILOT diz que “Em contraste, o ator e humorista Paulo Vieira foi citado como responsável por representar Lula no desfile, mas não há registro semelhante para o personagem Bozo. Ou seja: até agora, a identidade do passista que fez o Bozo não foi tornada pública”.

A tese de que Lula e o Partido dos Trabalhadores estariam “aparelhando” o desfile do Grupo Especial do Rio tem inspiração nas conceituações teóricas de Louis Althusser (1918 – 1990), que considerou como “Aparelhos Ideológicos de Estado” as escolas, igrejas, as famílias, e a Mídia. Ele mostrou como 0 Estado pode utilizar esses aparelhos para reproduzir a ideologia dominante e as relações de produção capitalistas de forma consensual,

Althusser demonstrou que os aparelhos funcionam pelo manejo da ideologia e da convicção, operando, principalmente, na esfera privada. A sua teoria, exposta pela primeira vez em 1970, aprofunda a compreensão de como os grupos que dominam o Estado mantém o poder além da força, legitimando sua dominação através de instituições culturais e sociais.

Os autores do Samba-Enredo são Teresa Cristina, André Diniz, Paulo Cesar Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira E Tem-Tem Jr. A letra é uma fala ficcional de dona Lindu, a mãe de Lula, retirante nordestina, que pegou a filharada e foi pra São Paulo tentar sorte melhor na vida pra ela e pra sua família.

Outros sete presidentes da República foram retratados anteriormente por Escolas de Samba em desfiles. Figuras como Getúlio Vargas, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Mario Covas, Fernando Collor, Anthony Garotinho, Geraldo Alckmin, José Serra,

Dilma Rousseff, Michel Temer, Marcelo Crivella e Marielle Franco foram homenageados (ou foram alvos de críticas) dos carnavalescos.

Clique aqui nos links para ver a argumentação do Enredo e a letra do Samba-Enredo da Acadêmicos de Niterói.

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*DALMO OLIVEIRA é jornalista.

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