
Eu estava procurando uma definição mais aproximada, talvez mais técnica, para tentar caracterizar (e buscar compreender) a figura do televangelista Silas Lima Malafaia. Principalmente depois que assisti “Apocalipse nos Trópicos”, o documentário dirigido por Petra Costa, que estreou no 81º Festival Internacional de Cinema de Veneza, em agosto do ano passado.
A conclusão a que chego, mesmo sem ter qualquer formação em Psicologia, é de que se trata de uma pessoa que tem personalidade histriônica. Nos vídeos que publica, Malafaia expõe uma emocionalidade em excesso. Sua procura alucinada em sempre ser o centro das atenções tomou corpo a partir do começo da idade adulta.
O criador da Assembleia de Deus Vitória em Cristo possui um comportamento provocador e demonstra alterações bruscas de humor e superficialidade na expressão emocional. Autodramatização, teatralidade e exagero na expressão emocional são outras marcas da fala pública do religioso.
Uma pesquisa comunicacional a partir das postagens que Malafaia faz no Twitter (agora, X) demonstra que ele costuma se apropriar de temas de forte apelo social, como direitos humanos e aborto, para erguer seu palanque político, reforçando estereótipos e disseminando desinformação deliberadamente. A mestranda da UFRN, Maria Luíza Santos Nunes, está finalizando um estudo que tem como título “Pela Fé e Violência de Gênero: Uma Análise Crítica Do Discurso De Silas Malafaia No Twitter/X”.
“A análise realizada confirmou a postura já esperada do pastor Silas Malafaia, que se apresenta como uma figura política conservadora e antidemocrática. Operando discursivamente para uma construção simbólica que naturaliza a sustentação de uma hegemonia que atinge diretamente as mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, utilizando estratégias retóricas, amparadas por uma crença limitante tida como verdade universal”, descreve Nunes.
Os problemas de demonstração pública de uma postura homofóbica de Malafaia são antigos. Em 2012, ele foi denunciado ao Ministério Público (MP) pela TV Bandeirantes por fazer comentários que foram considerados homofóbicos, de ódio. A representação da TV considerou, à época, que os comentários do televangelista tinham potencial para incitação de violências contra os homossexuais, mas o processo acabou sendo extinto pelo juiz federal Victorio Giuzio Neto, que o considerou a denúncia “uma forma de censura”.
Em 2013, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) repreendeu Silas Malafaia publicamente, que é psicólogo graduado. Motivo: declarações homofóbicas por ele dadas numa entrevista ao programa de Marília Gabriela.
Mentor?
No dia 15 de agosto o pastor pentecostal e escritor foi incluído no inquérito policial que investiga crimes de obstrução da justiça. Instaurado em maio, o inquérito da Polícia Federal apura ações contra autoridades, contra o Supremo Tribunal Federal, contra agentes públicos e a busca por sanções internacionais contra o Brasil. Os crimes investigados incluem coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Ele teve celulares e passaporte apreendidos na ocasião.
Em agosto de 2024, a Procuradoria-Geral da República (PGR) recebeu denúncia contra Malafaia, sendo acusado pelo financiamento dos chamados “Atos Antidemocráticos”.
Além do Transtorno da Personalidade Histriônica (TPH), Malafaia pode ter, concomitantemente, a síndrome da mitomania, que lhes causa uma forte angústia provocada pela alternância de crença nas próprias mentiras insustentáveis. Frequentemente, não conseguem visualizar sua própria situação pessoal de forma realista e tendem, ao invés disso, a dramatizar e exagerar suas dificuldades.
