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UM NOBEL PARA CHAMAR DE NOSSO

Mariangela Hungria | foto: Ascom Embrapa

por DALMO OLIVEIRA*

Petrolina, Vale do São Francisco, Sertão de Pernambuco, 06 de dezembro de 1994. O engenheiro florestal paranaense, Jorge Ribaski, chefe administrativo do Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semiárido (CPATSA), atualmente Embrapa Semiárido, assina minha Carteira de Trabalho.

Alguns meses antes, eu havia me submetido ao concurso público, disputando uma das poucas vagas para o cargo de “Técnico Especializado II” daquela Unidade. Até bem pouco antes daquele momento eu era apenas mais um cidadão que nunca havia ouvido falar da Embrapa, nem assistia, nas manhãs de domingo, o televisivo Globo Rural, cuja primeira edição foi ao ar no dia 6 de janeiro de 1980, idealizado pelo jornalista Luiz Fernando Mercadante.

Os anos seguintes mudaram completamente minha vida de um simples rapaz suburbano, cuja família tinha origem humilde na agricultura de subsistência no Agreste paraibano. Naquele tempo, as coisas da agropecuária para mim tinham importância apenas no que eu poderia ver sendo comercializado na feira livre de Guarabira, lugar aonde eu nasci e vivi até os 19 anos.

Foi na Embrapa que percebi o quanto eu era ignorante sobre agricultura, agronegócios, pesquisa agronômica, produção de alimentos em larga escala, técnicas de cultivos e tantos outros assuntos vinculados àquele universo fantástico e ainda invisível pra mim e pra maioria da população.

Ainda em Petrolina eu tive os primeiros contatos com os laboratórios que analisavam as propriedades dos solos, os nutrientes nas plantas, a qualidade das águas para irrigação. Eu fiquei encantado com aquilo! Aos poucos e por necessidade profissional eu fui compreendendo assuntos muito técnicos, como o melhoramento genético de plantas, conceitos e técnicas de pós-colheita, conservação e manejo de solos, produção de sementes e de mudas.

A Revolução científica nos celeiros

No Brasil, a, então chamada, “Revolução Verde” começa a se intensificar entre as décadas de 1960 e 1970. Foi quando ocorreu, de modo mais acelerado, a transição de uma agricultura tradicional para um modelo empresarial, industrial e… tecnificado, com o desenvolvimento de novas técnicas e máquinas para mecanização, uso de insumos químicos em fertilizantes sintéticos e em produtos agrotóxicos.

Em 1973 surge a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que centrou foco em trabalhos de adaptação de sementes e no desenvolvimento de novas técnicas para solos agricultáveis brasileiros, especialmente no bioma Cerrado. Mas, quase que contraditoriamente, agora em 2025, a estatal do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) alcança o World Food Prize (WFP), reconhecido como o “Prêmio Nobel da Agricultura”, exatamente pelo trabalho de uma de suas pesquisadoras cuja principal contribuição, ao longo das últimas décadas, tem sido desenvolver tecnologias para mitigar a fome no mundo tendo como princípio a necessidade de obter aumento significativo na produção de alimentos com sustentabilidade.

A cientista brasileira Mariangela Hungria é pesquisadora da Embrapa desde 1982, estando desde 1991 no centro de pesquisas da Embrapa Soja, em Londrina (PR). O feito dela é surpreendente para aqueles que imaginavam que a Embrapa se sustenta apenas pelos avanços que obteve no período da “Revolução Verde”. Sua pesquisa, de quase meio século, desenvolveu bioinsumos, ou seja: fertilizantes não-químicos que aumentam a produtividade da lavoura sem agredir o solo e o ambiente. Simples assim!

Suas pesquisas buscam constantemente o aumento da produção e da qualidade de alimentos por meio da substituição total ou parcial de fertilizantes químicos por microrganismos portadores de propriedades como fixação biológica de nitrogênio (FBN), síntese de fitormônios e solubilização de fosfatos e rochas potássicas.

A FBN no solo por meio de bactérias identificadas pela equipe da Dra. Hungria, permitiu substituir os antigos fertilizantes químicos, gerando uma economia estimada em R$ 127 bilhões, a cada safra, para ao agronegócio da soja no Brasil. Membro titular e diretoria da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Mariangela é a primeira brasileira a ser laureada individualmente pelo WFP.

A divulgação institucional da Embrapa Soja informa que outra tecnologia importante desenvolvida pela pesquisadora é a que usa a técnica de co-inoculação da soja, que une num só bioinsumo bactérias fixadoras de nitrogênio (Bradyrhizobium) e bactérias promotoras de crescimento de plantas (Azospirillum brasilense).

Hungria desenvolveu também com sua equipe de pesquisas outras tecnologias com utilização de bactérias do solo, chamadas de “rizóbios” e a co-inoculação também para a cultura do feijoeiro e do uso da bactéria Azospirillum brasiliense para as culturas do milho e do trigo e para pastagens com braquiárias. Grosso modo, trata-se de uma técnica agrícola que consiste no uso simultâneo de dois ou mais micro-organismos benéficos para potencializar o crescimento de uma planta.

Em 2021 a equipe da pesquisadora lançou tecnologia que permite a redução de 25% na fertilização nitrogenada de cobertura em milho por meio gramíneas, através da inoculação desse tipo de bioinsumo. A pesquisadora tem dito que sua abordagem busca “produzir mais com menos”. Menos insumos convencionais, menos água, menos terra, menos esforço humano e menor impacto ambiental. Ela se tornou assim, também um dos principais nomes mundiais do conceito de “agricultura regenerativa”.

Além deste benefício, Mariangela explica que essa tecnologia evitou, em 2024, a emissão de mais de 230 milhões de toneladas de CO₂ equivalentes por ano para a atmosfera. Segundo a Embrapa, a inoculação de bioinsumos na lavoura da soja é adotada anualmente em aproximadamente 85% da área total cultivada com essa cultura, hoje cerca de 40 milhões de hectares — representando a maior taxa de adoção de inoculação do mundo.

Mãe da revolução sustentável

Mariangela Hungria alcançou um patamar de cientistas como o agrônomo e biólogo Norman E. Borlaug, historicamente chamado de “pai da Revolução Verde”. Outros três brasileiros já foram agraciados com o WFP: Em 2006, os agrônomos Edson Lobato e Alysson Paulinelli e em 2011, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado do líder ganês John Kufuor, escolhidos conjuntamente por seus esforços como chefes de governo no combate à fome.

Mariangela possui graduação em Engenharia Agronômica (Esalq/USP), mestrado em Solos e Nutrição de Plantas (Esalq/USP), doutorado em Ciência do Solo (UFRRJ) e pós-doutorado em três universidades: Cornell University, University of California-Davis e Universidade de Sevilla.

A cientista é comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico e membro titular da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e da Academia Mundial de Ciências. É professora e orientadora da pós-graduação em Microbiologia e em Biotecnologia na Universidade Estadual de Londrina. Mariangela atua também na Sociedade Brasileira de Ciência do Solo e na Sociedade Brasileira de Microbiologia.

Ela fez parte do comitê coordenador do projeto N2Africa, financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates para projetos de fixação biológica do nitrogênio na África, e é membro do Conselho do Comitê de Nutrição Responsável do International Fertilizer Association e parceira em projetos com praticamente todos os países da América do Sul e Caribe, além de países da Europa, Austrália, EUA e Canadá. Em 2020, Mariangela foi classificada num ranking dos cientistas mais influentes no mundo, de acordo com o estudo da Universidade de Stanford (EUA). Em 2022, a pesquisadora ocupou a primeira posição brasileira, confirmada em 2025, em Fitotecnia e Agronomia, na categoria Plant Science and Agronomy, publicado pelo Research.com, um site que oferece dados sobre contribuições científicas em nível mundial.

Já recebeu várias premiações pela sustentabilidade em agricultura, como o Frederico Menezes, Lenovo-Academia Mundial de Ciências, da Frente Parlamentar Agropecuária, da Fundação Bunge. Em 2025, recebeu o Prêmio Mulheres e Ciência, promovido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em parceria com o Ministério das Mulheres, o British Council e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe.

Entre os quase oito mil empregados da Embrapa, tenho a certeza de que eu não sou o único que ficou com muito orgulho da premiação e reconhecimento dados à Dra. Mariangela Hungria. O “Nobel da Agricultura” é uma honraria prestigiosa para qualquer pessoa que atua nessa área, mas estou convicto de que se trata também de um Nobel para chamar de “nosso”.

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* DALMO OLIVEIRA é jornalista profissional, radialista e analista do Serviço Público atuando atualmente no Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA. Possui especialização em Gestão da Informação no Agronegócio pela UFJF e mestrado em Comunicação pela UFPE. Esse texto foi produzido com utilização de recursos de I.A e com informações de Lebna Landgraf e assessorias de comunicação da Embrapa.

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