Academia de Cordel do Vale do Paraíba vive disputa de gêneros

*por DALMO OLIVEIRA
A Academia de Cordel do Vale do Paraíba (ACVPB), uma instituição da sociedade civil, sem fins lucrativos, com a qual tenho colaborado, praticamente, desde seu nascedouro, em janeiro de 2015, vive um de seus momentos cruciais devido a uma disputa interna.
Na verdade, é uma disputa de poder que tem a questão de gênero como pano-de-fundo e que já se arrasta há vários anos, depois que cresceu o número de mulheres associadas à entidade, num esforço silencioso dos dois últimos ex-presidentes, Marconi Araújo e Fábio Mozart.
Aqui não cabem outros nomes, até para evitar possíveis interpelações judiciais posteriores. Mas quem acompanha mais de perto a dinâmica da ACVPB percebe, nitidamente, que o acirramento tomou volume depois que algumas associadas se articularam em torno de um coletivo que passou a se autodenominar “Marias da Poesia”. Nesse mês de março uma espécie de “guerra dos sexos” foi revigorada naquele coletivo.
Na semana passada, aproveitando as “comemorações” do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, algumas associadas à ACVPB tornaram pública uma Carta Aberta, com formato e intenção de abaixo-assinado, denunciando “(…) a invisibilidade feminina na entidade e o machismo estrutural que tem marcado a atual gestão”.
O documento político traz ilações genéricas como (..) recorrentes tentativas frustradas de diálogo interno” e uma “(…) exclusão sistemática de mulheres das principais atividades acadêmicas”.
Eu sou o estopim da bomba
A atual diretoria lançou na primeira semana desse mês uma chamada interna para a produção de um folheto coletivo, alusivo à data, mas as poetisas (algumas preferem ser chamadas de poetas também) se negaram a participar, alegando que não havia ocorrido discussão prévia com elas, que o mote era inadequado, que a métrica deveria ser outra, enfim…
Mas os boicotes feministas começaram bem antes, ao passo em que elas decidiram não participar da composição da nova diretoria, tampouco montaram chapa pra concorrer, na eleição ocorrida em dezembro p.p, nem toparam entrar em comissões importantes, como a de Ética, por exemplo. Ou seja, se negaram, peremptoriamente, a participar da governança da ACVPB. Lá em Guarabira, onde eu nasci, o povo chamava, antigamente, esse comportamento de “birra”.
O poeta e ex-presidente Fábio Mozart já vinha enfrentando esse “motim” antes, ao ponto de me segredar, mais de uma vez, que não estava aguentando a pressão desse grupo e que renunciaria do cargo. Fábio, um cara já idoso, suportou até o fim de seu mandato, heroicamente.
Eu, misógino??
Para evitar que o fogo “amigo” crescesse, a atual diretoria decidiu não rebater publicamente a tal “Carta Aberta”, mesmo estando o documento eivado de inverdades, tipo “(…) tentou deslegitimar nossa posição e classificar nossas manifestações como protesto infundado”.
Ofenderam-se ainda dizendo que eu teria praticado “(…) um ato carregado de insensibilidade e misoginia”, porque compartilhei no grupo de ZAP dos associados um card sobre uma promoção de sessões de psicoterapia para o público feminino, em plena semana do 8 de março. Eu tentei argumentar que se tratava apenas de divulgação sobre uma prestação de serviço, mas, quem quis ouvir?
Mais recentemente, vazou, no mesmo grupo, um áudio recortado de um outro contexto em que eu discutia, de maneira privada, com um membro, homem, da Academia. No trecho do áudio descontextualizado há uma alusão irônica minha a uma tarefa doméstica, que, geralmente, sobra para as mulheres.
Viva as mulheres!
Quem conhece mais de perto minha trajetória pública, de quase 40 anos, sabe que eu até posso ter resquícios do machismo estrutural (e ainda estruturante) da sociedade brasileira. Mas a pecha de “misógino” não combina com minha pessoa, nem com essa trajetória. Infelizmente, uma boa parte das senhoras e senhoritas que me acuam nesse momento sequer compreendem de fato o real significado desse termo.
Por outro lado, esse grupo tem utilizado o conceito de “silenciamento” de forma absolutamente distorcida e, em muitas situações, aposta em estratégias de desinformação para confundir a, assim chamada, Opinião Pública. Geralmente, por ignorância mesmo, e muitas vezes apenas por uma espécie de “modismo narrativo” adotado sem critérios.
Na ACVPB, as mulheres, que se querem feministas, precisariam de algum aporte (assessoria) mais consistente, para discutir com mais propriedade, semântica e politicamente, as nuanças do feminismo contemporâneo.
Michel Foucault e Pierre Bourdieu, analisando microestruturas de poder e as disputas pelo controle sobre os discursos públicos, definem bem a ideia de “violência simbólica” e de como estruturas de poder suprimem vozes dissidentes.
Já a filósofa estadunidense Judith Butler explica, brilhantemente, como normas sociais podem regular quem pode falar e quem deve ser ouvido. O colonialismo e o patriarcado forçaram sistematicamente e historicamente, grupos marginalizados (como os povos colonizados, mulheres pobres) ao silenciamento estrutural de dominação,
O coletivo de mulheres da ACVPB praticamente desconhece a conceituação de “feminismo Interseccional”. Percebe, muito menos, que dentro do próprio Movimento de Mulheres, um feminismo branco hegemônico ignora, historicamente, demandas de mulheres não-brancas.
Esse feminismo de likes de membros desse grupo de mulheres da ACVPB não consegue praticar sororidade com mulheres de outros segmentos sociais. Vivem ainda naquela fantasia de séculos passados, onde prevalecia a noção passiva de “irmandade”, enfatizando, tão somente, um ativismo inócuo contra as estruturas patriarcais.
O conceito de sororidade tem sido tensionado por debates importantes sobre a ideia de “prestação de contas” em movimentos feministas, especialmente quando mulheres privilegiadas perpetuam exclusões. No Movimento Negro, por exemplo, essa reivindicação se chama reparação coletiva, que precisa ser feita, principalmente, pelo Estado Brasileiro, que durante séculos permitiu e regulou a escravização de afrodescendentes nesta parte das Américas.
Lamento, sinceramente, que a movimentação desse coletivo de mulheres da ACVPB tenha sintomas de misandria, de etarismo, de racismo e de preconceito religioso.
Por fim, devo dizer que, mesmo estando numa posição incômoda, tendo sido colocado nisso de maneira injusta e maniqueísta, estou contente pela reação delas. Afinal, que outras pautas e lutas esse coletivo traria a público nesse momento caso não estivesse denunciando nossos machismos? Que bandeiras e proposituras estariam carregando se não estivessem envolvidas com essa disputa interna com a diretoria machista e “misógina” da ACVPB??
*DALMO OLIVEIRA, é jornalista, cordelista, ativista social, mas não é misógino.