Atenção leitores: esse texto não é uma exegese de obra cinematográfica!!

Depois de Bacurau (2019), o diretor recifense Kleber Mendonça Filho consolida, com O Agente Secreto (Vitrine Filmes, 2025), um modo conceber cinema que ele mesmo classifica como “sujo e impuro”. Se fosse algo mais artesanal e, portanto, menos Hollywood, poderíamos até dizer que é uma evolução da Escola Trash. Seu mais novo longa (e bota “longa” nisso!!) consolida um cinema cada vez mais visceral, porém sofisticado.
Mas, mesmo com o grande esforço narrativo/midiático de surfar na vibe do oscarizado e, quase documental, Ainda Estou Aqui (2024), a película de Mendonça Filho fica longe de ser mais um filme brasileiro tratando das questões políticas do período da Ditadura Militar no Brasil. Por outro lado, ele exibe nuances de como aquela ditadura nutriu sua versão civil/empresarial. Numa das falas mais sintomáticas, a personagem de Maria Fernanda Cândido diz que os “refugiados” e o protagonista precisariam mudar de nome “(…) para te proteger do Brasil!”.
O Agente Secreto encena ainda aspectos de uma espécie de cangaço urbanóide do Nordeste brasileiro naquele momento histórico, flertando uma linha narrativa com O Som ao Redor (2012), Aquarius (2016) e com a ideia de “novo cangaço” de Bacurau. Como os dois primeiros, ambientados em Recife, o filme desse ano acontece no mesmo locus, apodrecido ambiental e socialmente da capital pernambucana.
É o Nordeste re-inventado, entre a Zona da Mata canavieira e os manguezais adoecidos pelo crescimento urbano desordenado, a industrialização e o “progresso” a todo custo.
A Perna Cabeluda e os tubarões de Boa Viagem

A trama, desenhada no roteiro de Mendonça Filho, mistura a história da busca de um filho doutor pela mãe “índia” desaparecida, sem registros oficiais nos arquivos do Governo, com uma intriga por patentes industriais entre um pesquisador da Universidade e empresários capitalistas infiltrados numa estatal criada durante o período do “Milagre Econômico”.
O motivo do desaparecimento da esposa de Marcelo, personagem do badaladíssimo Wagner Moura, que no filme é interpretada por Alice Carvalho (Bacurau) também é um lapso de roteiro.
Tem um momento que a gente fica pensando que o jornal Diário de Pernambuco (o mais antigo em circulação por essas bandas das Américas) é o maior financiador do projeto de Kleber. Mas, parece, que o primogênito do Grupo Diários Associados serve apenas de atestado histórico para justificar o mix entre a lenda urbana absurda da famosa “Perna Cabeluda” e os ataques dos tubarões no litoral recifense.
Com todas as permissões poéticas e ficcionais possíveis e os delírios imaginários férteis de quem vive na “Veneza brasileira”, o diretor-roteirista emenda os “causos” da assombração amputada com as histórias reais das vítimas banhistas desavisadas entre as praias do Pina e de Candeias.

No escuro… do cinema
Kleber Mendonça caprichou no uso da, assim chamada, intertextualidade cinematográfica, que é quando você homenageia (ou não) outras obras dentro do seu próprio filme. Aqui no Nordeste alguém pode chamar essa “estratégia narrativa fílmica” simplesmente de “fazer a média”.
Primeiro porque ele joga boa parte da história ao redor do mais conhecido cinema recifense, o apoteótico São Luiz. Um dos personagens é o projetista da casa. E quem pensou, como eu, que o tal “agente secreto” seria o protagonista, errou feio. Trata-se, tão somente, de uma personagem da comédia de ação Le Magnifique (1973), filme dirigido por Philippe de Broca, que tem um trecho exibido dentro do filme de Mendonça Filho.
E o protagonista Marcelo não assiste apenas trechinhos do filme francês, ou do inesquecível Tubarão (1975), de Steven Spielberg. As referências (e memórias afetivas) de Kleber Mendonça estão também do lado de fora da telona, com cenas homéricas de punheteiros e de casais curtindo boquetes no escurinho da sala gigante. A cena da Perna Cabeluda atacando na praça também é muito voyerística, que me lembrou outro filme clássico do hedonismo erótico mundial: Caligula (1979),dirigido por Tinto Brass.
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*DALMO OLIVEIRA é paraibano, viveu em Recife e no Recôncavo baiano. Jornalista, radialista e documentarista principiante.
