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Green Card para golpistas

por DALMO OLIVEIRA*

REPRODUÇÃO: INSTAGRAM

Prosper Avril deixou o poder entre 1986 e 2026 e encontrou exílio nos Estados Unidos. O general haitiano chegou à Flórida em março de 1990, transportado por uma aeronave militar norte-americana. Esse pode ser o caso mais claramente identificado de um governante militar das Américas que se refugiou nos Estados Unidos nos últimos 40 anos.

Para começo de conversa, precisamos separar os que se exilaram efetivamente no país daqueles que foram, de lá, para outros destinos. E ainda daqueles que foram presos em território norte-americano e dos ex-presidentes que não podem ser classificados historicamente como ditadores.

Mas vamos dando linha a essa prosa: em 1994, Washington ajudou a organizar a saída do Haiti do general Raoul Cédras, responsável pelo regime militar que derrubou o presidente eleito Jean-Bertrand Aristide. Cédras, porém, foi para o Panamá, e não para os Estados Unidos. Vinte e três familiares e pessoas próximas dos militares que fugiram do Panamá naquele momento foram admitidos em território norte-americano.

Os Estados Unidos, atualmente sob a tutela de Donald Trump, nem sempre foram o destino final dos governantes autoritários, mas por vezes desempenharam papel decisivo na organização de sua saída e na negociação de seu exílio.

O caminho seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) iniciado na última segunda-feira, 26, não é novidade para ninguém. O caso do general haitiano Avril expõe as contradições da política externa de Washington e levanta uma questão incômoda sobre o destino dos governantes autoritários do continente.

Durante décadas, os Estados Unidos se auto-intitularam como defensores da democracia no continente americano. Entretanto, sua trajetória nas relações com a América Latina e o Caribe revela uma história muito mais contraditória, marcada por intervenções militares, apoio a governos autoritários, alianças estratégicas e negociações que, em determinados momentos, permitiram a antigos governantes escapar da pressão popular e deixar seus países.

Avril havia assumido o poder em 1988, em um período de instabilidade que se seguiu à queda da ditadura da família Duvalier. Seu governo foi marcado por repressão política e denúncias de violações de direitos humanos.

Diante da pressão popular, o general renunciou. Dois dias depois, em 12 de março de 1990, chegou à Flórida a bordo de uma aeronave militar norte-americana, acompanhado de familiares. A operação foi articulada em meio a negociações diplomáticas e ao temor de que sua permanência no Haiti provocasse novos confrontos. Avril passou a viver na região de Miami, em um episódio que exemplifica a capacidade de antigos governantes de encontrar abrigo fora dos países que governaram.

Sua trajetória, contudo, não terminou no exílio. Em 1994, um tribunal norte-americano considerou-o civilmente responsável por atos de tortura contra opositores haitianos. A decisão representou um marco importante na utilização da Justiça dos Estados Unidos para examinar violações de direitos humanos cometidas no exterior.

O caso expõe uma contradição: o mesmo país que ofereceu condições para a saída e a permanência de um governante militar também abrigou uma ação judicial que responsabilizou esse governante por graves violações. O exemplo daquilo que ocorreu com Prosper Avril deveria deixar o senador brasileiro, que perdeu as eleições democraticamente no domingo passado, de orelhas em pé.

O Haiti voltou a ocupar o centro dessa história em 1994. Em 1991, o general Raoul Cédras participou do golpe que derrubou o presidente eleito Jean-Bertrand Aristide. O regime militar subsequente foi marcado por repressão, violência política e perseguição a opositores.

Sob pressão internacional, os Estados Unidos intervieram no Haiti e participaram das negociações para restaurar o governo constitucional. Em outubro de 1994, Cédras deixou o país e recebeu asilo no Panamá. Washington ajudou a organizar a operação de saída, incluindo o transporte dos militares e de seus familiares. Parte dos familiares e colaboradores dos militares, entretanto, foi levada a Miami e admitida em território norte-americano.

A distinção é importante: Cédras não se refugiou nos Estados Unidos. Seu destino foi o Panamá. Ainda assim, a operação demonstra que Washington teve papel direto na negociação do afastamento de dirigentes de um regime militar e na organização de sua saída.

A história também revela a complexidade das transições políticas. A restauração de um governo constitucional pode envolver acordos com integrantes do regime deposto, inclusive para evitar confrontos e permitir a transferência de poder.

O problema surge quando esses acordos garantem condições de exílio e preservação patrimonial sem que haja responsabilização proporcional pelas violações cometidas.

A trajetória do panamenho Manuel Noriega demonstra outra face da política norte-americana. Noriega, por exemplo, passou de histórico aliado estratégico a prisioneiro. Ele exerceu o poder de fato no Panamá durante a década de 1980 e manteve relações com os serviços de inteligência dos Estados Unidos. Essas relações se deterioraram antes da invasão militar norte-americana do Panamá, em dezembro de 1989.

Em janeiro de 1990, Noriega se entregou às forças norte-americanas. Foi levado a Miami, onde respondeu a acusações criminais e acabou condenado por crimes relacionados ao narcotráfico. O episódio não pode ser classificado como um caso de asilo político. Noriega não escolheu os Estados Unidos como destino de exílio: foi capturado e levado ao país como prisioneiro. Algo muito semelhante (por motivos outros) do que ocorreu em janeiro desse ano com o ex-Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro

Ainda assim, sua trajetória levanta uma questão histórica incontornável: como um governante que havia mantido relações de cooperação com Washington acabou se tornando alvo de uma intervenção militar promovida pelo antigo parceiro? A resposta exige examinar a mudança dos interesses estratégicos, as acusações criminais e a disputa política que culminou na invasão.

A presença de antigos governantes latino-americanos na Flórida não se limita aos ditadores. O ex-presidente panamenho Ricardo Martinelli, eleito em 2009, passou a viver em Miami após deixar o governo. Em 2017, foi preso na cidade a pedido das autoridades panamenhas e, em junho de 2018, extraditado para seu país.

O boliviano Gonzalo Sánchez de Lozada, também eleito presidente, deixou o poder em 2003, em meio a protestos que resultaram em mortes de civis, e estabeleceu-se nos Estados Unidos.

Também é necessário distinguir os ex-presidentes que residem no exterior daqueles que receberam asilo formal, proteção diplomática ou ajuda governamental para deixar seus países. Miami e outras localidades da Flórida se tornaram destinos frequentes por razões geográficas, econômicas e sociais. A proximidade com o Caribe e a América Latina, as conexões internacionais e a presença de comunidades latino-americanas favorecem a instalação de estrangeiros, incluindo políticos e antigos governantes.

Democracia para quem?

A política externa dos Estados Unidos na América Latina foi profundamente influenciada pela Guerra Fria. A contenção do comunismo, a preservação de bases militares, a segurança regional e a defesa de interesses econômicos moldaram relações com governos de diferentes orientações políticas.

Em diversas ocasiões, o governo estadunidense manteve relações de cooperação com regimes autoritários, mesmo diante de denúncias de tortura, perseguição política e restrição de liberdades. Isso não significa que todas as administrações norte-americanas tenham adotado a mesma política ou que todo ex-governante acolhido no país tenha recebido proteção oficial. O fato concreto é que a defesa da democracia nem sempre foi o único fator determinante das decisões de Washington.

Os casos do Haiti e do Panamá mostram que a política externa norte-americana pode combinar pressões pela transição política, negociações com dirigentes autoritários, intervenções militares e ações judiciais posteriores.

Manuel Noriega e Nicolás Maduro foram levados aos Estados Unidos como prisioneiros. Raoul Cédras exilou-se no Panamá, embora Washington tenha ajudado a organizar sua saída do Haiti. Ricardo Martinelli e Gonzalo Sánchez de Lozada foram presidentes eleitos, cujas trajetórias exigem análise própria e não autorizam sua classificação automática como ditadores.

O autoexílio de Flávio Bolsonaro tem um fator novo nessa história. Um plano B, caso fosse derrotado nas eleições democráticas brasileiras, já vinha sendo rascunhado praticamente desde a prisão de Jair Bolsonaro. A fuga do irmão, Eduardo, vivendo desde março de 2025 em território americano, acabou se tornando uma evidência inequívoca disso.

A Imprensa brasileira e estadunidense noticiaram que a estratégia de fuga recebeu supervisão dos serviços de inteligência do Tio Sam. Segundo matéria do The New York Times, Jason Miller, da equipe de Comunicação da Casa Branca, teria fretado o jatinho usado pela família do senador Bolsonaro para a fuga espetacular do dia 26. O candidato derrotado nas urnas no domingo passado também foi encoberto pelo Governo argentino

Relatório da Polícia Federal brasileira (de onde Eduardo foi demitido do cargo de Escrivão) dão conta de que a família detêm condições financeiras e logísticas para viver, regiamente, em, praticamente, qualquer país do chamado “Norte Global”. Eduardo se encastelou no Texas, residindo numa mansão avaliada em R$ 6 milhões e teve seu mandato parlamentar cassado em dezembro de 2025 devido ao excesso de faltas na Câmara dos Deputados, após ter se licenciado informalmente para morar nos EUA.

De seu bunker luxuoso, o irmão de Flávio tem focado seu tempo e recursos em campanhas de desinformação contra o Judiciário brasileiro. Em 2026, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 4 anos e 2 meses de prisão em regime fechado por coação no curso do processo, relacionada às investigações sobre a trama golpista de 2022.

A pergunta que fica: até quando o governo estadunidense vai garantir o Green Card para golpistas das outras repúblicas das Américas?

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*DALMO OLIVEIRA é jornalista

Texto redigido a partir de pesquisa com ferramentas de I.A

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