
por Dalmo Oliveira*
A população negra da Paraíba (e a indígena, também de certa maneira) continua sendo impedida de escolher representantes minimamente legítimos nas disputas quadrienais, tanto para a nossa Assembleia Legislativa, quanto para o Congresso Nacional. Não por vontade própria, mas, acima de tudo, por conta das estruturas historicamente estabelecidas que barram essa possibilidade.
Desta forma, essa população se vê obrigada a terceirizar esse direito, escolhendo, nos pleitos sucessivos, candidatas e candidatos sem a mínima noção de pertencimento racial. É como se a maioria do eleitorado (e da nossa população) fosse simplesmente impedida de poder ter algum representante que possar atuar em sua defesa, com esse tipo de consciência.
A consciência negra, aliás, caiu em desuso nas narrativas das lideranças da Esquerda, dos sindicatos e dos movimentos sociais. Atualmente, os identitarismos determinados pelo direito às múltiplas sexualidades ou por um feminismo meramente biologizado superaram a visibilidade pública da questão da promoção da igualdade racial.
Por outro lado, “minorias” sociais como a dos povos indígenas e das comunidades quilombolas, não conseguem superar a destinação de lugares de representação de alcance local, como as câmaras dos vereadores. O resultado disso é que políticas públicas para essas populações são esquecidas, ou apagadas, ou menosprezadas nos âmbitos estadual e federal.
No campo da saúde coletiva, por exemplo, há décadas se busca consolidar linhas de cuidado permanentes para pessoas com a doença falciforme, sem sucesso. Algumas gestões mais sensibilizadas até ensaiam a adoção de uma medida ou outra, mas na gestão seguinte: desmontada.
Garantia e reserva de leitos hospitalares, algo extremamente básico em qualquer sistema de saúde que se reivindique “universal”, continua sendo o principal gargalo para o pronto atendimento de usuários (geralmente negros) durante as crises falciformes. A população que vive na região polarizada por Cajazeiras, no nosso alto Sertão, continua sendo obrigada ao desafio de viajar 10 horas por vias terrestres para obter tratamento ou internação com alguma qualidade na capital do Estado, João Pessoa.
Por conta desse tipo de descaso, a associação dos pacientes (ASPPAH) tem orientado seus associados e associadas dali a buscarem socorro médico e hospitalar na vizinha Juazeiro do Norte (CE). No Brejo e no Cariri da Paraíba o drama é o mesmo. Simplesmente não se encontram hematologistas para atender esse grupo.
Na ALPB, as pautas raciais são raras, levantadas esporadicamente por dois ou três deputados ou deputadas, que prefiro não citar agora por causa desse bendito “defeso eleitoral”, que funciona muito mais como mordaça do que como mecanismo republicano para evitar usos indevidos das máquinas públicas.
As comunidades quilombolas continuam inacessíveis, enquanto os empreendimentos dos novos condomínios de luxo em Bananeiras e Solânea ganham estradas asfaltadas novinhas em folha.
Rede de esgotos e fornecimento de aguá tratada nas periferias de Campina Grande, Patos, Sousa, Guarabira, Monteiro são um “luxo” que o investimento público aposta com muita parcimônia. Agora, observe qual tipo de cidadão e cidadã reside nesses lugares. Antigamente, a gente chamava isso de “racismo ambiental”.
Nessas periferias, quando as enchentes ocorrem, advinha quem perde tudo, quem adoece ou morre nas enxurradas…
Para a população negra: mais presídios. E as populações das comunidades ficam à deriva dos “estados paralelos”. Nossa juventude entregue às culturas da violência, da sexualização precoce e do ócio recreativo. Advinha qual a raça/cor das famílias que são expulsas e ameaçadas pelo narcotráfico dos apartamentos dos minha-casa-minha-vida da vida??
Novas eleições na nossa porta. Quem nos representa efetivamente? Quem é quem neste jogo escroto de cartas marcadas??
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*Dalmo Oliveira é jornalista. Já disputou as eleições na Paraíba por três vezes: a vereador (em João Pessoa), deputado estadual e deputado federal.