AMORELEJÓOPINIÃO

Já fui mulher (negra), eu sei!

por DALMO OLIVEIRA*

Dalmo na cozinha (imagem editada por I.A)

No sábado, perto das 11 horas, eu começo a preparar o almoço. Enquanto a água ferve para o arroz, vou lembrando de minha mãe cozinhando. Da habilidade dela com o manejo culinário adquirida durante quase 40 anos preparando comida para muita gente, no hospital aonde ela trabalhou até a aposentadoria.

Eu me sinto mais completo nessa atividade, mesmo que o resultado seja um almoço simples, apenas para mim mesmo. Vendo a transformação dos alimentos in natura em pratos prontos para serem ingeridos, mesmo que seja apenas uma panela de macaxeira ou um arroz refogado.

Numa semana em que as mulheres negras celebram seu protagonismo em todas as áreas, eu me pego pensando naquela mulher que sempre foi protagonista de sua vida.

Que criou seus filhos praticamente sozinha e que, mesmo assim, nunca cobrou publicamente apoio do “chefe da família”, acumulando funções que a sociedade costuma separar entre homens e mulheres.

Às vezes eu me pego rindo de mim mesmo. Herdei isso dela. Rindo das minhas desventuras, riso nervoso, automático, desnecessário. Entre uma colherada e outra, vou compreendendo aquele sacerdócio solitário do cozinhar. Testando o sal, dosando o óleo do refogado, acrescentando água e amassando o alho no pilão de madeira.

Gosto de sentir a massa do fubá entre os dedos hidratando rapidamente.

Tem coisas que a gente aprende sem ser ensinado. Como se aquele saber fluísse sozinho, espontaneamente, por osmose. Quando eu estou cozinhando me sinto melhor, mais humano, sinto que já fui ela.

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*DALMO é jornalista e filho de Dalvanira Oliveira.

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